Computadores fazem arte…

Na letra do saudoso Chico Science, já faz algum tempo que eu pego carona…

Em 1991, no Brasil, uma linha telefônica custava cerca de mil dólares, e sua instalação poderia demorar entre três e seis meses. No mercado negro, o preço poderia chegar a dez mil dólares. Naquele tempo, uma linha telefônica era um patrimônio.

Para acessar a “rede” era preciso conectar a uma BBS e, com muito esforço, sem ajuda do Google ou qualquer mecanismos de busca, esbarrar com um usuário com quem fosse possível trocar arquivos interessantes (não me refiro aos arquivos sexualmente interessantes, porque naquela época qualquer imagem ou vídeo deixaria o criador do RedTube de cabelo em pé – só o cabelo).

Meu primeiro computador foi um CP500 Turbo, um microcomputador profissional com clock de 4MHz, com monitor de fósforo verde de 12” incorporado ao gabinete, alto-falante interno, duas unidades de disquete de 8 polegadas (uma máquina!). O sistema operacional era o SO-08, clone do CP/M. Ainda hoje, décadas depois, vejo os pontos verdes quando fecho olhos para dormir…

Com a chegada do PC XT (IBM Personal Computer XT) subimos o primeiro degrau para algo que podemos chamar de informática: disco flexível de 360 kB 5 1/4″, unidade de disco rígido de 10 MB (uau!) e o famosíssimo DOS – Disk Operating System. Algo que ficou: o nosso teclado hoje é quase o mesmo do PC XT. Mas naquela época mouse… era o Mickey…

Em seguida veio o AT 286… 386… 386SX… 486… (todos estes números referentes à CPU 80386…) e, BUM! Abriram as portas para o mercado externo, cai a lei de proteção à tecnologia nacional, e saltamos do segundo degrau para o décimo.

Vocês já sabem o que vem depois: PC (Personal Computers, de verdade), Laptop, Netbook, MacAir (pelo preço, deveria vir acompanhado de um Mc Lanche Feliz), Tablet, IPhone, IPed, IPod (mas aqui NãoPod).

Ninguém poderia imaginar que duas décadas depois das chamadas ao 145 (quem tem mais de 30 sabe do que estou falando) teríamos mais de um celular por habitante, acesso à Internet em banda larga, 3G, mobile, videochamadas no computador, no celular, Skype (saudades do ICQ e do mIRC), Blog, Videoblog, Facebook, Twitter, LinkedIn, TED, YouTube, Pinterest, Instagram, Flickr, Google Drive, DropBox, One Drive, WhatsApp, Google Hangouts, perfis sociais e profissionais, dinâmicos e aerodinâmicos.

Sigamos adiante… juntos. Abaixo estão os meus perfis, enquanto sobreviverem.

     

 

 

 

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Projeto Sociais produzem impacto?

Não.

De forma direta: não.

Não mesmo!

Calma… antes de você desistir de continuar a leitura deste artigo, deixe-me complementar a resposta: projetos sociais contribuem para a produção de impacto – não o alcança(m) sozinho(s).

Programas e portfolio produzem impacto.

Esta compreensão é importante para que financiadores, executores e beneficiários de projetos sociais alinhem suas expectativas. De uma forma inconsciente, chama-se de projeto qualquer intervenção que se realiza na área social. Mas será que há diferença entre uma intervenção com duração de um ano, orçamento de R$ 170 mil, e 500 beneficiários… de outra intervenção com 50 mil beneficiários, em orçamento de USD 4 milhões e 5 anos de duração?

A metodologia PRINCE2 explica que a escala de um projeto depende de vários aspectos, que é relativa. Um projeto de £ 10 milhões pode ser simples para uma organização e desafiador para outra. O PRINCE2 define o projeto (escala) da seguinte forma: projeto simples, projeto normal, projeto desafiador, e programa. Eu, particularmente, jamais classificaria uma intervenção de £ 10 milhões como projeto, independente da organização executora.

O PMDPro, por sua vez, diferencia claramente projetos, programas e portfolio, destacando que em um projeto somente podemos alcançar um objetivo específico, contribuindo para o impacto de um programa, e do portfolio da organização. Esta também é a visão do PMBOK, com a diferença que este não aponta impacto como alcance de programas… este alcance transita entre programas e portfolio.

Segundo o PMBOK, o impacto não alcançado por projeto isolado e, muitas vezes, também não é produzido por um programa. Um exemplo de programa citado no PMBOK é a construção de um sistema de satélite de comunicação, com projetos de design do satélite e estações terrestres, projeto para construção de cada uma delas, integração do sistema, e lançamento do satélite. Sequer é citado o impacto em termos de lucro ou de benefícios para consumidores que este programa proporcionaria.

Projetos x Programas x Portfolio

Imaginemos que você deseja fazer com que a água de uma piscina transborde, mas você tem como ferramentas apenas pequenas pedras. Ao jogar uma pedra, você gera ondas na água, que podem com o tempo, repetição, mudança do ângulo e altura do lançamento, local onde cai na piscina… podem… fazer a água transbordar.

O projeto: jogar uma pedra na água, alcançando um objetivo específico – desestabilizar o nível da água. Para isso, você precisará fazer várias atividades: escolher a pedra, calcular o ângulo e altura e, jogar a pedra.

Quando a pedra tocar na água e gerar ondulações, você alcançou o objetivo do seu projeto. Você deverá avaliar este alcance, reformular teorias, instrumentos, intervenções (mudar a trajetória, altura, escolher pedra com outro formato ou tamanho). Então, um novo projeto poderá ter início, complementando o alcance do primeiro…

A partir de um conjunto de projetos (de pedras lançadas), que contribuíram para um mesmo impacto, seu programa terá alcançado uma transformação: redução do nível da água da piscina, através do transbordamento.

Algumas vezes, nem mesmo um programa conseguirá promover a transformação… apenas um conjunto de programas, ou talvez todos os programas e projetos – o portfolio de sua organização.

Então, não devemos executar projetos?

Claro que devemos. Não existe um programa sem projetos. Os exemplos anteriores já ilustram isto, e neste sentido PMDPro, PMBOK e PRINCE2 são convergentes:

Projeto: é um empreendimento temporário assumido para criar um produto, serviço ou resultado exclusivo (PMDPro), levando em conta três elementos principais que o limitam: escopo, recursos (orçamento), e tempo.

Programa: é um grupo de projetos relacionados que são gerenciados de modo coordenado para se obter os benefícios e o controle não disponíveis através do gerenciamento individual de um projeto (PMDPro), ou, é uma estrutura temporária e flexível criada para coordenar, direcionar e supervisionar a implementação de um conjunto de projetos e atividades para entregar produtos e benefícios relacionados aos objetivos estratégicos da organização.

Portfolio: é a coleção de projetos e programas da organização (PMDPro), ou, refere-se a projetos, programas, subportfolios e operações gerenciados como um grupo para atingir objetivos estratégicos – não necessariamente interdependentes ou diretamente relacionados entre si (PMBOK).

As duas figuras a seguir ilustram esta estrutura:

 

 

 

 

 

 

 


 

Mas, afinal, e o impacto será alcançado?

Sim! O impacto de programas sociais será alcançado a partir da coordenação integrada de vários projetos, subprogramas, atividades paralelas e de outras organizações. Devemos nos afastar desta expectativa que um único projeto irá mudar o mundo.

Devemos, ainda, compreender que impactos sociais estão relacionados a mudanças culturais, comportamentais, e transformações profundas de nossa sociedade. E isto requer tempo, investimento, e envolvimento por parte de todos: financiadores, executores e, principalmente, beneficiários.

 

Imagina na Copa

(texto também publicado no Promenino)

Este bordão tem sido falado desde que o Brasil foi eleito para sediar a Copa do Mundo 2014. O bordão girou em torno dos problemas de locomoção, violência, infraestrutura aeroportuária, lixo nas ruas (não apenas pela estética, mas pelas suas consequências, como alagamento de ruas e avenidas), entre outros.

Nos últimos meses, com a proximidade do evento, um turbilhão de demandas, solicitações, reclamações e manifestações têm vindo à tona, ligados a problemas muito mais amplos e complexos de nosso Brasil.

Independente da fonte ou precisão dos valores apresentados pleiteia-se que os bilhões investidos em aeroportos, ruas e avenidas, e estádios, poderiam ter sido aplicados na saúde, educação e segurança do nosso país.

O evento trouxe à tona que não nos faltam recursos, mas que são mal administrados e direcionados. Longe de mim me posicionar contrário a estas reivindicações, e acredito que o evento pode sim ser uma boa oportunidade de unir a sociedade e tornar visível esta conclusão a que chegamos… ou que se prova em números.

Porém, me preocupam ainda mais os problemas que serão catalisados pelo evento em si: mais especificamente a vulnerabilidade de nossas crianças e adolescentes ao trabalho infantil. A Copa irá ampliar o espaço para exploração de crianças em trabalhos mais corriqueiros e que nos passam despercebidos, como guardadores de carros, vendedores de ruas, até as formas mais cruéis de trabalho: a exploração sexual.

A Copa vai acontecer com ou sem boicotes e passeatas. E, ao que me parece, estaremos desperdiçando toda nossa energia em desejar que ela nunca tivesse acontecido.  Mais que isso, talvez percamos o foco e venhamos a pleitear por mudanças que não acontecerão durante ou por causa da Copa.

Às vésperas do jogo de abertura, nosso foco deveria ser como proteger nossas crianças, adolescentes e nossa sociedade durante os 32 dias do evento, e as semanas que se seguirem, onde o turismo ainda estará fervilhando.

Com relação aos gritos de mais hospitais, mais segurança, mais educação, que não percamos o fôlego quando as próximas eleições (que estão próximas) chegarem.

Devemos focar no evento e nos riscos que representa e amplifica para nossa sociedade, para nossas crianças, durante sua execução. Se nossas crianças já estão expostas à exploração e violência “hoje”, imagina na Copa!

Acreditamos realmente que o setor das organizações sem fins lucrativos tem algum papel na mudança do mundo?

Para responder esta pergunta, precisamos não apenas reinventar a forma como nos enxergamos enquanto atores sociais, mas também como a sociedade vê o papel e forma de atuação das organizações sem fins lucrativos.

O TED que apresento nesta publicação foi indicação de Tammy Wieloch, profissional com quem tive o prazer de trabalhar e, mais que isso, de me tornar amigo. Poucas semanas depois, Jonathan Macedo, participante de um treinamento recente que realizamos Tefé, Amazonas, me indicou o mesmo TED. Não foi coincidência – este é, de longe, um dos melhores discursos no TED sobre o setor de desenvolvimento social.

Como você pode ganhar dinheiro com caridade, se a caridade é sua penitência por ganhar dinheiro? Esta pergunta norteia a razão pela qual uma ONG é mal vista pela opinião pública se é lucrativa, ou mesmo por nós nos sentirmos culpados…

Já no início de sua apresentação, Dan Pallotta nos conquista com sua inovação social pessoal (ser gay e pai de trigêmeos). Mas, considerando momento que enfrento pessoalmente de transição e mudanças profissionalmente…o que me cativou a ouvir seu discurso atentamente foi a frase (bomba) que ele solta para introduzir o assunto:

“As coisas que nos ensinaram a pensar sobre doações e caridade, e sobre as organizações sem fins lucrativos estão, na verdade, minando as causas que amamos e nosso profundo anseio de mudar o mundo.”

Ele divide sua análise em 5 pontos principais:

  1. Compensação
    Se você quer fazer 50 milhões de dólares vendendo jogos de video games violentos para crianças, vá em frente. Nós te colocaremos na capa da Revista Wired. Mas se você quer ganhar meio milhão de dólares tentando curar crianças com malária, você é considerado um parasita.
  2. Propaganda e Marketing
    É proibido investir em marketing no terceiro setor.
  3. Correr risco para implementar novas idéias
    Disney pode investir 100 milhões de dólares em um filme que fracassa, mas uma ONG não pode captar 1 milhão e não ter retorno, pois os órgãos de controladoria fiscal baterão à sua porta.
  4. Tempo
    Paciência apenas existe para objetivos de longo prazo relacionadas a lucro.
  5. Lucro para atrair capital de risco
    Empresas podem dar lucro às pessoas para atrair seu capital para novas idéias mas você não pode ter lucros numa organização sem fins lucrativos.

Deixarei que os leitores tirem sua própria conclusão após assistir ao seu discurso. Espero que, assim como eu, concordem com a conclusão de Dan Pallotta, que nossa geração não quer ler um epitáfio “Nós mantivemos o custo administrativo da caridade baixo”, e sim que mudamos o mundo.

Maioridade penal – Varrendo o problema para debaixo do tapete

A discussão sobre a redução da maioridade penal em nosso país me parece interminável e, no meu entendimento, representa uma tentativa de desviar a atenção para o problema que deve ser realmente atacado: nosso sistema de reabilitação de infratores e criminosos não está nem perto de ser adequado – seja para crianças e adolescentes, seja para adultos.

Se você é a favor da redução da maioridade penal e ainda não leu o Estatuto de Criança e do Adolescente – ECA, então sugiro que interrompa a leitura deste artigo, e retorne depois da leitura.

O ECA, por muitos interpretado apenas como um instrumento de “privilégios” para crianças e adolescentes, prevê o tratamento dos jovens infratores como sujeitos de direitos e de responsabilidades. No caso de infração, estabelece medidas sócio-educativas, cuja finalidade é punir, sim, mas ao mesmo tempo prepará-los para o convívio social.

É na aplicação das medidas sócio-educativas que reside o real problema. Ou… na ausência de um sistema, metodologias padronizadas, e equipamentos públicos que realmente ressocializem infratores – de qualquer idade.

O mais interessante é que, sem o ECA, os menores de 18 anos não poderiam ser apreendidos, punidos ou reeducados. Surpresa! O Art . 228 da Constituição Federal estabelece: “São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial”. Ou seja, sem o ECA, fica apenas o inimputável.

Mas o ECA não confere super direitos ou imunidade aos menores de 18 anos. Acima do Estatuto está a Constituição Federal, contra a qual nenhuma lei pode dispor. O ECA apenas dispõe e regulamenta o que a Constituição não dispõe…

Vamos deixar de lado, por hora, esta abordagem jurídica. A maioria dos argumentos que tenho ouvido não se baseia em qualquer arcabouço jurídico ou acadêmico. Assim, vou listar alguns destes argumentos e colocar minha opinião, pura e simplesmente.

Se o adolescente pode votar…

…então ele também tem discernimento entre o certo e o errado, sobre seus direitos e deveres, e deveria ser preso.

Com raras exceções, adolescentes não têm informação ou maturidade suficiente para votar de forma consciente. Quem tem filho(a) adolescente (ou maior) sabe o quanto o indivíduo é influenciável, nesta parcela da vida, pelo(s) grupo(s) social(is) a que pertence.

Certa vez, quando tinha 16 anos, meu filho pulou a cerca de um terminal rodoviário, apenas para acompanhar um grupo de amigos. Ele tinha dinheiro no bolso para pagar passagem, sabia distinguir o certo do errado, foi educado para cumprir regras e leis… mas… mesmo assim, o comportamento coletivo o influenciou. Se seu/sua filho(a) adolescente nunca cometeu um erro desta natureza (em maior ou menos grau), investigue e o(a) acompanhe mais de perto.

Votar x Maioridade Penal: um erro não justifica outro… e este argumento não me convence.

17 anos e 11 meses… cometeu um crime… e não foi preso.

Perfeito! Talvez não devesse ser preso aos 18 anos e 1 mês de idade. O ser humano não vai dormir um dia imaturo, e acorda no outro com maturidade. Obviamente precisamos de um marco, um norte ou linha que identifique o momento em que o jovem se torna totalmente responsável pelos seus atos.

Aliás, o que  não tenho visto é a responsabilização dos pais ou tutores legais pelos atos de menores de idade. Pelo menos, não me recordo de ter lido alguma matéria sobre um caso onde os pais foram punidos.

Mas voltando ao argumento, se reduzirmos a maioridade penal para 16 anos, este argumento continuará sendo utilizado para crianças que tenham 15 anos e 11 meses de idade e cometam algum crime. Faça uma reflexão, e admita que você irá reciclar este argumento, independente da idade limite que for estabelecida como maioridade penal…

Adolescente nunca vai preso.

Opa! “Peraí”!

Você tem lido jornais ou assistido à programas na televisão que te fazem acreditar que ser apreendido não é ser “preso”?  Mude de canal (ou de jornal).

Você deve imaginar que, ao descobrir que o infrator é menor de idade, o policial retira as algemas, e de forma educada diz: “Prezado senhor jovem, perdão pela abordagem. Solicito encarecidamente que o senhor, por gentileza, me acompanhe até o Juiz da Infância para uma conversa amigável e descontraída” – oferece, então, uma carona, no banco da frente da viatura, tomando um sorvete, e conversando sobre trivialidades do dia a dia.

O adolescente é encaminhado para o Conselho Tutelar ou para Juiz da Infância e Juventude. Em caso de flagrante, o adolescente é sim privado de sua liberdade, sendo encaminhado para uma Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente ou, na ausência deste órgão, para um Delegado comum, municipal ou distrital.

Verificada a prática de ato infracional, a autoridade competente poderá aplicar ao adolescente internação em estabelecimento educacional.

O problema é a escassez e precariedade destes estabelecimentos, bem como a superlotação. Nem quero (ainda) falar sobre as medidas sócio-educativas que são aplicadas…

Já que não há estabelecimentos para menores suficientes, então mandar para a cadeia resolve…

Boa! Os presídios brasileiros estão com ociosidade, espaço sobrando… então o mais certo será enviar adolescentes para lá. Acho que não preciso me delongar na análise deste argumento.

Os estabelecimentos educacionais para menores não estão adequados para a reeducação. Então, é melhor enviar para o sistema prisional.

Boa! De novo!

Nossos presídios são extremamente eficazes na reabilitação de adultos, então, com certeza o serão com adolescentes. Sério? Será mesmo que os presos que retornam à sociedade não voltam a cometer crimes?! Esta ressocialização vai, então, dar certo com os adolescentes?!

Convido a um exercício de sua imaginação: o que você acha que acontecerá com um jovem de 17 anos ao ser jogado em uma cela superlotada, com marginais (e inocentes) cumprindo pena (ou aguardando julgamento), onde a lei do mais forte prevalece?

Adolescentes são apreendidos e, rapidamente, soltos.

Estou começando a ficar confuso. Devo então crer que nosso sistema judiciário está funcionando muito bem com os adultos… e que isso não acontece com a justiça comum. São apenas os adolescentes que voltam rapidamente “às ruas” por falha do judiciário?!

Se adolescentes (e adultos!) retornam à sociedade sem uma análise (julgamento) adequado, a falha está no sistema judiciário, e não na idade…

Devemos ainda nos lembrar que o retorno à sociedade é parte do processo de ressocialização, seja para adolescentes ou para adultos. As medidas sócio-educativas é que estão erradas, bem como o processo de acompanhamento do egresso após reinserção na sociedade.

Outros países têm maioridade penal com 16… 15 anos.

Verdade. Em Portugal a maioridade penal ocorre aos 16 anos… 10 anos na Inglaterra, 12 anos no Canadá, 13 na França, 14 na Áustria, Alemanha e Itália.

Mas… você conhece os sistemas prisionais destes países? Eu não me atrevo a comentar sobre cada um dos países, mas na maioria há tribunais especiais, sistemas prisionais que separam adultos dos adolescentes, e medidas sócio-educativas mais eficientes que as nossas (muito mais!).

Nos Estados Unidos, alguns estados fixam idade legal mínima entre 6 e 12 anos. Porém não há uma imputabilidade absoluta – ou seja, antes de julgar a culpabilidade, o fato em si é julgado e cabe ao juiz decidir se o adolescente será julgado como adulto ou não (imputabilidade relativa).

Esta talvez fosse uma alternativa viável: caso a caso, analisada a reincidência, brutalidade do crime (hediondo), e histórico do adolescente, decidir se ele(a) será julgado como adulto ou não. Depois, por um outro juiz e júri popular, julgar a culpa.

Mas… esbarramos outra vez no ineficiente (e desastroso) sistema correcional brasileiro…

Por fim, por favor, não tente me convencer utilizando a comparação com a maioridade penal em Singapura (12 anos), Ucrânia (16 anos) ou Israel (13 anos).

– – –

 

Defender a maioridade penal é uma atitude simplista. É varrer o problema para debaixo do tapete, ou jogar (julgar) todos os casos, de todas as idades, dentro do mesmo saco. Muito antes de discutirmos a maioridade penal é preciso revisar todo o sistema de ressocialização, de maiores e menores. Este assunto, por si só, mereceria um novo artigo.

Se formos míopes a ponto de simplificar o problema pela idade do infrator, corremos o risco de seguir o exemplo de Portugal, que hoje estuda a redução da maioridade penal de 16 para 14 anos. Mas só seguiremos o exemplo da redução da maioridade, e não das medidas de educação e ressocialização…

 

A solapa nas redes sociais

Por José Geraldo da Silva, Tenente Coronel R1

A solapa que hoje grassa nas redes sociais, atingindo personagens públicas, atos administrativos e fatos sócio-políticos, é uma prática que muito se assemelha ao que ocorria “boca a boca” em todos os lugares, na década de 70 (antes da popularização da Internet), quando se espalhava nacionalmente uma onda de pessimismo orquestrada.

É evidente que a solapa, seja ela baseada em verdades, meias verdades ou mentiras, tem o propósito de desgastar e enfraquecer o seu alvo, através da formação de opinião. Essa empreitada nem sempre alcança sucesso, notadamente quando circula num meio restrito de grupos corporativos que, de algum modo, já comungam da mesma opinião. A mensagem que não tem uma característica viral que se difunda a outros segmentos torna-se inócua.

Observamos que os autores, desta feita, sequer expressam opiniões ou produzem materiais próprios, limitando-se a repassar aquilo que outros colocaram nas redes, sem uma análise acurada sobre as possibilidades de produzir o efeito desejado sobre determinado público alvo. No íntimo, se satisfazem com um prazer mórbido negativista, a ocultar a sua incapacidade de agir positivamente na direção de um objetivo maior, dentro do contexto em que cabem iniciativas producentes.

É com certo ceticismo que recebo mensagens desse tipo, repassadas por alguns companheiros que desperdiçam esforço e tempo. NÃO REPASSO, porque acredito que uma boa causa não conquista adeptos com esse instrumento; seria como entrar na guerra com cartuchos de festim ou tentar apagar fogo com extintor errado.

Contrapropaganda não se faz com improvisos aleatórios. Esperar que  solapas e lamentos sejam capazes de despertar salvadores quixotescos, é pura ingenuidade. Além disto, não vejo entre os apregoadores do caos, homens dispostos a sair das suas confortáveis trincheiras.

T C  Geraldo – Sócio n° 0376 – ASMIR/PB

O futuro do apadrinhamento no Brasil

Após uma recente pesquisa sobre o futuro do apadrinhamento de crianças (Sponsorship) em projetos conduzidos por organizações não governamentais (ONGs), me preocupou o fato de não ter encontrado nenhuma reflexão, texto, vídeo, talk (TED) sobre o futuro desta forma de filantropia.

Estamos deixando de lado uma questão fundamental: qual será o futuro deste modelo de apoio a crianças carentes?

Mas… como funciona o apadrinhamento?

A grande maioria dos modelos se baseia na contribuição mensal de um padrinho a uma ONG que identifica uma criança, acompanha e garante alimentação e acesso a serviços básicos (como educação e saúde). Através da contribuição mensal, o padrinho passa a se corresponder com a criança, através de cartas – e assim acompanha todo o seu desenvolvimento e a melhoria da qualidade de vida que sua contribuição proporciona. Os recursos não são enviados diretamente à criança, exceto presentes e ajudas específicas, também monitoradas através das ONGs.

Em países muito carentes, cuja estrutura governamental não consegue atender a demanda de educação e saúde para a população, as ONGs acabam por desempenhar este papel, oferecendo estes serviços a partir deste recurso recebido do padrinho. No Brasil, as ONGs procuram buscam não substituir o papel do Estado na oferta dos serviços básicos. Assim, disponibilizam educação e atividades complementares à educação básica através de projetos sociais direcionados às crianças. Porém, somente crianças que estejam matriculadas e frequentando escolas são elegíveis para serem apadrinhadas.

Estudo publicado pela University of Chicago Press indica que o apadrinhamento internacional aumenta em 27% a 40% as chances de uma criança completar o ensino secundário, de 50% a 80% de completar a universidade, e em cerca de 35% de alcançar um trabalho de “colarinho branco” quando adulto.

Os recursos dos padrinhos é ainda aplicado em atividades com as famílias e comunidades, no sentido de capacitá-los para monitorar e exigir melhoria dos serviços prestados pelo governo, e para garantir o desenvolvimento do entorno familiar e comunitário da criança.

À frente deste processo se encontram “grandes” ONGs, que possuem a capacidade de realizar campanhas, alcançar estes padrinhos e direcionar os recursos para organizações de base comunitária para que ocorra a oferta dos projetos às crianças.

É papel fundamental destas ONGs (o mais importante) impedir o contato não monitorado entre os padrinhos/madrinhas e as crianças – com o intuito de garantir a integridade da criança. Além disto, as ONGs garantem aos padrinhos a qualidade das atividades oferecidas às crianças, suas famílias e comunidades.

E qual o problema, então?

Na atualidade, o Brasil é visto pela comunidade internacional como um país rico. Entende-se que, apesar das desigualdades sociais, o Brasil é capaz de resolver seus próprios problemas. Esta imagem de nosso país tem causado uma queda do número de estrangeiros que apadrinham crianças brasileiras – uma queda ainda não acentuada, mas constante.

Pergunte a um potencial padrinho europeu se ele prefere apadrinhar uma criança no Brasil, no Haiti ou em um país africano. Pergunte a si mesmo…

Por outro lado, não há uma cultura de apadrinhamento nos brasileiros. Os próprios brasileiros (ou uma boa parte deles) acredita que o governo deveria resolver este problema. O Governo, por sua vez, não resolve… e não permite que esta cultura se desenvolva, já que nossas leis de isenção ou restituição de impostos não permite que pessoas físicas deduzam doações feitas em processos de apadrinhamento.

Mas… então, não bastaria que as ONGs oferecem atividades apenas para a quantidade de padrinhos existentes? Não funciona bem assim…

O processo deixa recursos ao longo do caminho. Todas as cartas enviadas pelos padrinhos às crianças, ou o inverso, são lidas (lembra-se da proteção das crianças?). A maior parte destas cartas precisa ser traduzida. O volume de cartas é tão elevado que algumas organizações contam com parceria com os Correios para possuir um centro de processamento próprio.

Assim, com um número reduzido de crianças, não é possível manter esta estrutura de garantias que existe, e cujo custo é elevado. Apenas com um processo em larga escala pode-se manter esta estrutura intermediária necessária.

Quais seriam, então, as alternativas?

Apadrinhamento de escolas/organizações de base comunitária

Atualmente, o processo de apadrinhamento funciona em um formato de 1 padrinho para 1 (ou mais) criança. É este volume quase inimaginável de correspondências e um monitoramento individual de cada criança que torna o processo tão custoso.

A partir do apadrinhamento de escolas, o monitoramento se torna mais simples: garantia de que há um número mínimo de crianças na escola/organização social de base; garantia da qualidade da oferta de atividades para crianças e adultos.

Também será possível contornar o problema do ponto de saturação: em uma comunidade com 200 crianças, somente podemos ter 200 padrinhos. A partir do apadrinhamento de uma organização social de base, podemos ter 400 padrinhos que mantém as atividades para 200 crianças, por exemplo.

Apadrinhamento corporativo

Esta solução se assemelha à do apadrinhamento de escolas/organizações de base comunitária acima, porém com o diferencial que, no lugar de 01 indivíduo apadrinhar a escola ou organização, uma empresa seria o sponsor.

Uma das vantagens é que, enquanto pessoa jurídica, a empresa pode descontar do imposto de renda parte de sua doação. Desta forma, no lugar de cada um dos empregados (aqueles que optarem por participar) doarem, a empresa descontaria o valor dos contracheques e faria a doação diretamente.

Já tive contato com alguns casos onde a empresa, em virtude de seu benefício fiscal, paga metade do valor do apadrinhamento e o funcionário a outra metade.

Todos saem ganhando: o funcionário pode apadrinhar com um valor mais baixo, a empresa tem dedução fiscal, e tanto a empresa como os funcionários podem agregar valor à imagem corporativa.

O processo de comunicação se torna também menos custoso – trata-se de “um padrinho” empresarial… e, ficará ainda menos custoso se o apadrinhamento for de uma escola ou organização, e não de crianças, individualmente.

Uso de novas tecnologias para comunicação criança-padrinho

A democratização do acesso a novas tecnologias (redes sociais) cria ao mesmo tempo uma solução e um risco. Uma das maiores preocupações das ONGs que atuam com processos de apadrinhamento é a proteção da criança, através do monitoramento da comunicação entre ela e seu padrinho/madrinha.

No Brasil, este monitoramento torna-se quase impossível com a crescente democratização do acesso à Internet, e a possibilidade de padrinhos/madrinhas e crianças “se encontrarem” virtualmente.

Neste caso não há solução simples – mas não podemos simplesmente “deixar para lá”. Esta comunicação virtual já existe e deveríamos encarar não como apenas um risco, mas como uma oportunidade de reduzir os altos custos de comunicação do apadrinhamento.

Já há “pilotos” em curso para utilizar plataformas virtuais (paralelas, não abertas) para esta comunicação. Mas este não é o caso… o FaceBook está aí, e devemos usá-lo ou ele irá nos atropelar.

Devemos lembrar que há padrinhos e madrinhas que preferem receber as cartinhas, ver a letra ou desenho da criança, sentir o cheiro do papel e guardar o selo do envelope.

Inversão da lógica de apadrinhamento

Em minha opinião, esta será a solução para o apadrinhamento 1 a 1 tradicional. Por inversão da lógica, entende-se a inversão do fluxo de recursos: o padrinho não mais faria sua contribuição mensal a uma “grande” ONG, e sim diretamente a uma organização de base comunitária.

Desta forma, a ONG que anteriormente era uma intermediária (necessária), não mais necessitaria de uma estrutura “pesada” (administração, recursos humanos, TI, etc.). Seria necessário apenas que esta ONG tivesse uma equipe reduzida.

Seu papel mudaria significativamente. No lugar de administrar estes recursos e garantir a qualidade das atividades oferecidas às crianças, a ONG focaria apenas neste último aspecto.

A organização de base comunitária seria certificada – como acontece hoje com o Comércio Justo ou com os produtores orgânicos. Desta forma, os padrinhos/madrinhas teriam a certeza que a organização social de base que escolhesse segue um alto padrão de qualidade, tem uma boa governança, e um processo administrativo transparente e bem conduzido.

Mais recursos chegariam “à ponta”, permitindo uma sobrevida do atual processo de apadrinhamento 1 a 1. Idealmente, um plano de transição necessitaria ser colocado em prática: convidar os padrinhos a apadrinhar a organização (e não mais uma criança específica) e se estudar uma forma de selecionar os padrinhos e permitir sua comunicação direta com a criança – os padrinhos também seriam certificados.


Estas são apenas ideias que, se combinadas e testadas, poderiam se consolidar ou evoluir a partir da experimentação e avaliação de resultados. Ao menos, estaríamos testando novos modelos e buscando alternativas, no lugar de simplesmente tapar o sol com uma peneira.