A antiga e permanente Síndrome da Eguinha Pocotó

Há alguns anos, assisti a uma palestra da cientista política Susan Lewis, cujo título foi “A Síndrome da Eguinha Pocotó”. Susan, que foi minha professora na universidade, falou sobre o movimento funk/rap que tomava conta das rádios, emissoras de televisão, e até do carnaval de Olinda – algumas pessoas devem lembrar o “quer dançar, quer dançar, o tigrão vai te ensinar” que tomou conta dos quatro cantos do país.

Trazendo esta discussão para os dias atuais, podemos ver (ouvir) manifestações culturais do funk ostentação, do tecnomelody erótico, do axé sexual, das músicas que não possuem mais que 3 conjuntos de palavras com uma melodia e ritmos quase idênticos.

Não me atrevo a fazer qualquer crítica ao movimento funk ou às músicas que embalam certos carnavais. Não tenho propriedade nem conhecimento para fazer uma análise ou emitir um parecer. Aliás, eu incorreria no erro de criticar músicas atuais comparando-as com aquelas dos saudosos anos 80/90 – e simplesmente estaria sendo preconceituoso, ou vivenciando o que é denominado “choque de gerações”.

O que incomoda e considero alarmante é o fato que algumas crianças e adolescentes crescem tendo apenas estas músicas como referência. Foi neste aspecto que Susan focou em sua palestra.

Quando um adulto escuta, dança e se diverte com músicas cujo conteúdo é absolutamente sexual, ou promove valores como o de ser rico, ter o melhor carro e a roupa de marca, podemos entender como apenas uma diversão. Há exceções, claro, de adultos que realmente acreditam nestes valores. Mas eles tiveram a possibilidade de comparar estas músicas e valores com outras cujo conteúdo é, digamos, diferente. É uma opção do adulto absorver ou acreditar em valores que eu não absorveria.

Uma vez mais: longe de mim querer fazer qualquer julgamento. Cada um, cada um. Mas, o adulto teve a opção, pôde comparar e decidir. A criança (e o adolescente), por sua vez e em alguns casos, cresce imersa em um conjunto de músicas que refletem valores que eu considero equivocados – não tem opção, não tem um referencial, não tem escolha.

Da mesma forma que podemos imaginar os efeitos psicológicos em uma criança que cresce e se desenvolve em um ambiente onde a violência é comum e “normal”, podemos prever como será o adulto cujo desenvolvimento se deu em meio a:

  • “Eu dou pra quem quiser; Que a P** da B** é minha” – Valesca Popozuda
  • “Virou, mexeu, tirou ondinha; Vai na tarraxinha” – Claudia Leitte
  • “Começa na cerveja, bebi a noite inteira; Mistura tudo sobe em cima da mesa; Pode ser ice. vodka slovan, vinho ou cachaça Bebe até o chão rala na boca da garrafa” – Gaby Amarantos, da trilha sonora da novela Salve Jorge
  • “As novinhas tão pedindo e tão todas assanhadas; Novinha o que vcs que em?; É a P** turbinada” – MC Guimê

Cuidemos das generalizações – elas são perigosas e injustas. Há sim excelentes exemplos de músicas contemporâneas, que trazem um conteúdo positivo, como “Mixturação”, de Carlinhos Brown (e olha que nem gosto das músicas dele), e “Ostentar Esperança”, do MC Gui (nem das dele…).

E por fim, como já dito, cada um: cada um. Não me sinto no direito de julgar – mas ao menos que criemos condições e oportunidades para que as crianças e adolescentes tenham opções, absorvam valores tradicionais (por assim dizer), e não se limitem ao “small picture”.

Desligue a TV e o rádio. Vá ouvir um disco. De preferência, vinil.

Chame seu filho(a) para ouvir com você.

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