Nasce a Teoria da Prática

A Educação qualquer que seja ela,
é sempre uma teoria do conhecimento posta em prática.
Paulo Freire

Se, por um lado, a teoria do conhecimento posta em prática é base da educação, por outro lado, no setor de desenvolvimento social, teorias surgem a partir da prática, do conhecimento empírico que brota das necessidades das comunidades menos favorecidas, e permitem educadores e cientistas sistematizá-las e transformá-las em modelos e metodologias, permitindo que ambas, teoria e prática, alcancem e beneficiem outras comunidades.

Com esta lógica como sua base, surgiu em 2014 a Teoria da Prática, uma iniciativa que busca a aplicação prática de teorias do setor de desenvolvimento social e de outros setores em projetos sociais, adaptando-as, contextualizando-as, e busca o saber popular e o conhecimento prático do desenvolvimento comunitário para elaborar teorias e modelos de desenvolvimento.

A Teoria da Prática é uma organização que oferece serviços e  treinamentos em gestão de projetos para organizações do terceiro setor e para negócios sociais. Atuando como um agregador, catalizador e difusor de ferramentas, conhecimento, instrumentos, informações, objetiva potencializar a capacidade de organizações sociais e indivíduos na transformação de realidades, e na geração de impacto social positivo.

Todas as ferramentas, artigos técnicos, templates, e metodologias passarão a ser publicados na Teoria da Prática, apesar deste blog permanecer ativo.

Visite e se inscreva na Teoria da Prática, fruto do sonho e trabalho do autor deste blog.

O saber popular nasce da experiência sofrida,
dos mil jeitos de sobreviver com poucos recursos.
O saber acadêmico nasce do estudo, bebendo de muitas fontes.
Quando esses dois saberes se unirem, seremos invencíveis.
Leonardo Boff
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Projetos Sociais e Educação Financeira

Por Fábio Barbalho

Projetos sociais trazem vários desafios, o principal deles é compreender a real necessidade da população assistida e deixar nossas vontades de lado, já no início do projeto; depois na fase de implementação é efetivar a transformação social e por fim torná-lo sustentável, mesmo quando a equipe operacional sair de cena.

A união de pessoas por um bem coletivo é louvável e por si só, e já traz uma transformação sócio econômica como a geração de renda, conquista da casa própria, inclusão digital, aprendizados musicais, melhores hábitos alimentares, ou seja, MOTIVAÇÃO para a ação transformadora.

A transversalidade do tema educação financeira comportamental dá subsídios para concretizar o projeto, ou seja, mais que uma casa, precisamos de um lar ou além da criação de renda, saber gerir as finanças para a melhora na qualidade de vida até mesmo um curso de idioma pode abrir uma oportunidade de emprego e então poder investir na faculdade.

Por muitas vezes olhamos o efeito e não a causa. Podemos pegar como exemplo moradores de rua que tem como meio de subsistência pedir dinheiro no farol, limpando para-brisas ou vendendo balas para se alimentar e foi agregado em uma cooperativas de catadores que lhe gerou uma renda média.

O treinamento comportamental o fará entender essa grande mudança no padrão, imagine alguém que está habituado a receber pequenas quantias o dia todo e a cada necessidade reforça o trabalho para superar a necessidade; agora se vê com um valor substancial (para o seu contexto) e tem que administrar por 30 dias, assim como um jovem que consegue um primeiro emprego e terá que destinar parte dos ganhos para outras conquistas que reforcem seu cresimento profissional.

Vale a pena mais um exemplo da moradia. Consegui a minha casa e agora? como mobiliar? qual a TV ideal? Quando vou conseguir um sofá confortável? Aqui mora um perigo ainda mais evidente. Muitos pensam que nosso padrão riqueza está atrelado aos grandes exemplos de mídia, quando na verdade existe uma grande briga de egos que habita ao lado e é por isso que queremos a casa, o celular e carro melhores que o do vizinho.

O acesso ao crédito e programas de geração de renda é fator essencial para nosso país continuar crescendo e as iniciativas do terceiro setor darão condições para mais brasileiros terem qualidade de vida.

Programas de educação financeira, são extremamente acessíveis e tem linguagem simples para ajudar na concretização desses projetos, dosando o consumismo e principalmente o anseio imediatista, fazendo que a prosperidade seja contínua, ou seja, hoje conquisto meu o acesso a renda, logo minha casa, depois incremento ela, logo vem o carro e assim por diante.

Poder realizar sonhos de curto, médio e longo prazo são bons motivos para manter-se firme no propósito de qualquer programa social e dará condições de realizado, tornar-se um multiplicador/ exemplo para outras pessoas, cumprindo com o compromisso de aos poucos mudar o mundo.

Fábio Barbalho
Consultor Ponto C e Educador Financeiro
Fábio é coordenador de Marketing na CECRES – Cooperativa de Crédito, Consultor de finanças pessoais, Palestrante e Coordenador do Programa de Gestão de Finanças Pessoais onde atua com uma equipe multidisciplinar no desenvolvimento continuo com pesquisas, melhores práticas e orientação financeira.

A antiga e permanente Síndrome da Eguinha Pocotó

Há alguns anos, assisti a uma palestra da cientista política Susan Lewis, cujo título foi “A Síndrome da Eguinha Pocotó”. Susan, que foi minha professora na universidade, falou sobre o movimento funk/rap que tomava conta das rádios, emissoras de televisão, e até do carnaval de Olinda – algumas pessoas devem lembrar o “quer dançar, quer dançar, o tigrão vai te ensinar” que tomou conta dos quatro cantos do país.

Trazendo esta discussão para os dias atuais, podemos ver (ouvir) manifestações culturais do funk ostentação, do tecnomelody erótico, do axé sexual, das músicas que não possuem mais que 3 conjuntos de palavras com uma melodia e ritmos quase idênticos.

Não me atrevo a fazer qualquer crítica ao movimento funk ou às músicas que embalam certos carnavais. Não tenho propriedade nem conhecimento para fazer uma análise ou emitir um parecer. Aliás, eu incorreria no erro de criticar músicas atuais comparando-as com aquelas dos saudosos anos 80/90 – e simplesmente estaria sendo preconceituoso, ou vivenciando o que é denominado “choque de gerações”.

O que incomoda e considero alarmante é o fato que algumas crianças e adolescentes crescem tendo apenas estas músicas como referência. Foi neste aspecto que Susan focou em sua palestra.

Quando um adulto escuta, dança e se diverte com músicas cujo conteúdo é absolutamente sexual, ou promove valores como o de ser rico, ter o melhor carro e a roupa de marca, podemos entender como apenas uma diversão. Há exceções, claro, de adultos que realmente acreditam nestes valores. Mas eles tiveram a possibilidade de comparar estas músicas e valores com outras cujo conteúdo é, digamos, diferente. É uma opção do adulto absorver ou acreditar em valores que eu não absorveria.

Uma vez mais: longe de mim querer fazer qualquer julgamento. Cada um, cada um. Mas, o adulto teve a opção, pôde comparar e decidir. A criança (e o adolescente), por sua vez e em alguns casos, cresce imersa em um conjunto de músicas que refletem valores que eu considero equivocados – não tem opção, não tem um referencial, não tem escolha.

Da mesma forma que podemos imaginar os efeitos psicológicos em uma criança que cresce e se desenvolve em um ambiente onde a violência é comum e “normal”, podemos prever como será o adulto cujo desenvolvimento se deu em meio a:

  • “Eu dou pra quem quiser; Que a P** da B** é minha” – Valesca Popozuda
  • “Virou, mexeu, tirou ondinha; Vai na tarraxinha” – Claudia Leitte
  • “Começa na cerveja, bebi a noite inteira; Mistura tudo sobe em cima da mesa; Pode ser ice. vodka slovan, vinho ou cachaça Bebe até o chão rala na boca da garrafa” – Gaby Amarantos, da trilha sonora da novela Salve Jorge
  • “As novinhas tão pedindo e tão todas assanhadas; Novinha o que vcs que em?; É a P** turbinada” – MC Guimê

Cuidemos das generalizações – elas são perigosas e injustas. Há sim excelentes exemplos de músicas contemporâneas, que trazem um conteúdo positivo, como “Mixturação”, de Carlinhos Brown (e olha que nem gosto das músicas dele), e “Ostentar Esperança”, do MC Gui (nem das dele…).

E por fim, como já dito, cada um: cada um. Não me sinto no direito de julgar – mas ao menos que criemos condições e oportunidades para que as crianças e adolescentes tenham opções, absorvam valores tradicionais (por assim dizer), e não se limitem ao “small picture”.

Desligue a TV e o rádio. Vá ouvir um disco. De preferência, vinil.

Chame seu filho(a) para ouvir com você.

PMDPro no Mundo

Após exatos 4 anos da criação do guia de boas práticas PMDPro (Project Management in Development), somos mais de 5 mil profissionais certificados no mundo. Mais importante que a certificação em si, a padronização de instrumentos e processos, a linguagem comum, e a profissionalização ao alcance de todos os profissionais do terceiro setor foi e é o diferencial deste movimento.

A certificação traz um benefício óbvio aos profissionais e instituições a que pertencem. Muito além da moldura, a aplicação das ferramentas tem contribuído para que projetos sociais sejam melhor elaborados, planejados, executados, monitorados e avaliados. E… por esta razão… somos muito mais que os 5 mil certificados. 7.453 pessoas em todo o planeta realizaram o exame de certificação – um índice de aprovação de quase 70%. Além destes, há ainda aqueles que apenas participaram do treinamento e não realizaram o exame.

Parabéns às organizações que compõem a LINGOS por esta iniciativa e pelo inquestionável resultado alcançado. Parabéns às organizações que compartilharam o conhecimento e treinaram os PMDPros, especialmente a INK e ChildFund Brasil, responsáveis por quase a totalidade dos treinados e certificados no Brasil.

Mas… onde estamos? O que fazemos? Como se tornar um PMDPro?

Os links abaixo apresentam mapas interativos com a distribuição das 7.453 pessoas que realizaram o exame para certificação PMDPro1 (se você deseja acessar o mapa em full size, por favor entre em contato através de nosso formulário).

Clique no mapa acima para acessar o mapa interativo com o o total de participantes,
ou nos globos abaixo para visualizar os participantes por ano.

       
 2010  2011  2012  2013

O que fazemos? Como se tornar um PMDPro?
Mande sua mensagem através do nosso formulário de contato para saber mais sobre o PMDPro e se tornar um de nós.

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Estratégias de Resposta a Riscos – O caroço da azeitona

Em outro artigo, tratamos da diferença entre pressuposto, problema e risco. Para este último, vamos aprofundar a discussão, descrevendo estratégias ou formas de responder a riscos que venham a ocorrer.

Abaixo estão algumas características de um projeto fictício:

  • Meu projeto recebe recursos de um financiador dos Estados Unidos, o câmbio está muito instável nos últimos meses;
  • Serão realizadas oficinas em municípios do interior, onde a energia oscila bastante, e há muitos apagões;
  • Realizaremos uma mobilização comunitária, cuja expectativa é usar meios de comunicação da comunidade, mas ainda não temos certeza do apoio que receberemos da rádio comunitária e jornal local;
  • Serão construídas 50 casas em uma região montanhosa, em um período com chuvas alternadas, mas não temos opção de adiar para o verão em virtude de requerimento do financiador.

Okay. Eu sei que meu projeto tem diversos riscos… mas… o que fazer?

Para cada um dos riscos, é preciso decidir entre 04 opções ou estratégias de resposta, e assim elaborar planos de ação baseados na estratégia escolhida. Você pode ainda combinar estas opções para resposta a um mesmo risco.

  • Evitar o risco: não faça (ou faça de um modo diferente)
  • Transferir o risco: compartilhar o risco com outros atores
  • Mitigar o risco: reduzir a probabilidade e/ou o impacto do risco
  • Aceitar o risco: se a probabilidade percebida e o impacto do risco forem avaliados como aceitáveis, ou simplesmente se não for possível adotar nenhuma das outras estratégias.

Você já foi a um casamento, festa de debutantes, e se deparou com o garçom a servir uma bela porção de azeitonas, não?! Calma, antes que você se pergunte se eu estava bebendo algo (muito forte) e comendo azeitonas quando escrevi este artigo… eu vou me explicar.

Comer azeitonas em uma festa qualquer tem um risco inerente que é o de você encher sua mesa de caroços de azeitona, passando por um embaraço perante os demais convidados… e o dono da festa, claro.

Neste caso, você precisa adotar uma das estratégias de resposta a riscos, antes mesmo de iniciar sua atividade – que é esbaldar-se em azeitonas…

  • Evitar o risco: não com azeitonas. Se contenha com coxinhas, sanduíches de atum, ou aquele empanado que a gente nunca consegue adivinhar qual era o recheio.
  • Transferir o risco: ao pegar sua cota de azeitonas da bandeja do garçom, caminhe elegantemente pelo salão, sente na companhia de amigos ou mesmo desconhecidos, e coma as azeitonas. Ao deixar pequenas parcelas de caroços nas mesas dos outros, você está transferindo o risco de passar vergonha para os ocupantes destas mesas.
  • Mitigar o risco: reduza a probabilidade de alguém ver os caroços na sua mesa, jogando embaixo da mesa… ou reduza o impacto: enrole cuidadosamente em guardanapos e coloque na mesa – vai ficar feio… mas um pouco menos embaraçoso.
  • Aceitar o risco: coma as azeitonas, coloque os caroços sobre a mesa, e os outros que pensem o que quiserem. Afinal, você nem é amigo do dono da festa…

Esta foi apenas uma brincadeira para exemplificar, de forma lúdica, as quatro opções de estratégias de resposta a riscos. Voltando aos exemplos do início do artigo, vejamos alguns exemplos de estratégias de resposta:

Risco

Estratégia

Descrição

Risco da variação cambial reduzir meu aporte de recursos mensal Transferir Realizar um contrato de Hedge junto a um Banco, para garantir fechamento de câmbio estável.Os bancos comerciais possuem um serviço, chamado Contrato de Hedge, onde o recebedor de recursos estrangeiros pode “fechar” uma taxa de câmbio por um período de tempo (um ano, seis meses). Qualquer variação do câmbio será absorvida pelo banco. Obviamente, este serviço é pago…
Risco de apagão ou queda de energia durante oficinas de capacitação que utilizam projetor multimídia Mitigar Levar material impresso (diagramas, fotos) e ter à disposição flip-chart quadro branco. Caso a energia seja cortada, o impacto será reduzido – pois a capacitação ainda acontecerá, mesmo que sem os recursos multimídia que a enriquecem.
Risco de não termos apoio dos meios de comunicação local para a mobilização a ser realizada Evitar Escolher outra forma de realizar a mobilização – através da contratação de um carro de som e de uma passeata com voluntários e uma banda de música.
Risco de chuvas durante a construção das casas Aceitar Como não é possível alterar o período da construção, por requerimento do financiados, a solução é aceitar o risco, no caso da ocorrência de chuvas, informar ao financiador os impactos no cronograma e orçamento do projeto. É importante, porém que o financiador esteja ciente deste risco (por escrito), mesmo que ele não aceite alterar o período.

Por fim, devemos ter em mente que não adianta identificar, priorizar e elaborar planos de resposta a riscos, se não monitorarmos como anda a probabilidade deste risco acontecer, e se o impacto esperado sofreu alguma mudança. Estas mudanças podem alterar a prioridade de monitoramento e de resposta a este risco. Além disto, mudanças no ambiente mais amplo do projeto podem sugerir que a estratégia de resposta seja reformulada.

(sugerimos a leitura do Guia PMDPro, Disciplina 4: Gerenciamento de riscos, para aprofundar o conhecimento sobre riscos, principalmente no que diz respeito à Identificação, avaliação, priorização, planejamento de resposta, controle e monitoramento de riscos)

Risco, Problema e Pressuposto – A caminho do trabalho

É comum confundirmos alguns conceitos técnicos porque possuem definições parecidas de acordo com o contexto ou área de trabalho. Mais ainda, cada metodologia ou especialista tem sua própria forma de definir ou “chamar” alguns conceitos.

Por exemplo: para muitas pessoas um pressuposto é a mesma coisa que premissa. Não está errado, nem certo…

Precisamos, então, escolher uma forma de chamar, e definir, estes conceitos. No nosso caso, utilizaremos a definição de acordo com o PMDPro – Project Management in Development Professionals.

Segundo o PMDPRo, risco é o efeito potencial da incerteza sobre os objetivos do projeto. Em outras palavras, é algo que pode acontecer e impactar o projeto, positiva ou negativamente.

O pressuposto, por sua vez, é o ponto crucial da lógica vertical de intervenção do Marco Lógico. É algo que precisamos que aconteça (ou se mantenha) para que o objetivo do projeto seja alcançado. O pressuposto não está sob a governança do projeto e não podemos fazer nada (ou quase nada) para garantir que ocorra ou se mantenha.

Por fim, um problema é uma decisão não tomada, uma situação que está acontecendo ou aconteceu, e que afetará significativamente o projeto. Um problema pode ser um risco que se materializou, um pressuposto que não se manteve, ou simplesmente algo que não havia sido previsto antes.

Vamos tentar ilustrar esses três conceitos com um “causo” e, a seguir, apresentaremos exemplos reais.
(continue lendo o post para ler o “causo” e ver os exemplos práticos).

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O futuro do apadrinhamento no Brasil

Após uma recente pesquisa sobre o futuro do apadrinhamento de crianças (Sponsorship) em projetos conduzidos por organizações não governamentais (ONGs), me preocupou o fato de não ter encontrado nenhuma reflexão, texto, vídeo, talk (TED) sobre o futuro desta forma de filantropia.

Estamos deixando de lado uma questão fundamental: qual será o futuro deste modelo de apoio a crianças carentes?

Mas… como funciona o apadrinhamento?

A grande maioria dos modelos se baseia na contribuição mensal de um padrinho a uma ONG que identifica uma criança, acompanha e garante alimentação e acesso a serviços básicos (como educação e saúde). Através da contribuição mensal, o padrinho passa a se corresponder com a criança, através de cartas – e assim acompanha todo o seu desenvolvimento e a melhoria da qualidade de vida que sua contribuição proporciona. Os recursos não são enviados diretamente à criança, exceto presentes e ajudas específicas, também monitoradas através das ONGs.

Em países muito carentes, cuja estrutura governamental não consegue atender a demanda de educação e saúde para a população, as ONGs acabam por desempenhar este papel, oferecendo estes serviços a partir deste recurso recebido do padrinho. No Brasil, as ONGs procuram buscam não substituir o papel do Estado na oferta dos serviços básicos. Assim, disponibilizam educação e atividades complementares à educação básica através de projetos sociais direcionados às crianças. Porém, somente crianças que estejam matriculadas e frequentando escolas são elegíveis para serem apadrinhadas.

Estudo publicado pela University of Chicago Press indica que o apadrinhamento internacional aumenta em 27% a 40% as chances de uma criança completar o ensino secundário, de 50% a 80% de completar a universidade, e em cerca de 35% de alcançar um trabalho de “colarinho branco” quando adulto.

Os recursos dos padrinhos é ainda aplicado em atividades com as famílias e comunidades, no sentido de capacitá-los para monitorar e exigir melhoria dos serviços prestados pelo governo, e para garantir o desenvolvimento do entorno familiar e comunitário da criança.

À frente deste processo se encontram “grandes” ONGs, que possuem a capacidade de realizar campanhas, alcançar estes padrinhos e direcionar os recursos para organizações de base comunitária para que ocorra a oferta dos projetos às crianças.

É papel fundamental destas ONGs (o mais importante) impedir o contato não monitorado entre os padrinhos/madrinhas e as crianças – com o intuito de garantir a integridade da criança. Além disto, as ONGs garantem aos padrinhos a qualidade das atividades oferecidas às crianças, suas famílias e comunidades.

E qual o problema, então?

Na atualidade, o Brasil é visto pela comunidade internacional como um país rico. Entende-se que, apesar das desigualdades sociais, o Brasil é capaz de resolver seus próprios problemas. Esta imagem de nosso país tem causado uma queda do número de estrangeiros que apadrinham crianças brasileiras – uma queda ainda não acentuada, mas constante.

Pergunte a um potencial padrinho europeu se ele prefere apadrinhar uma criança no Brasil, no Haiti ou em um país africano. Pergunte a si mesmo…

Por outro lado, não há uma cultura de apadrinhamento nos brasileiros. Os próprios brasileiros (ou uma boa parte deles) acredita que o governo deveria resolver este problema. O Governo, por sua vez, não resolve… e não permite que esta cultura se desenvolva, já que nossas leis de isenção ou restituição de impostos não permite que pessoas físicas deduzam doações feitas em processos de apadrinhamento.

Mas… então, não bastaria que as ONGs oferecem atividades apenas para a quantidade de padrinhos existentes? Não funciona bem assim…

O processo deixa recursos ao longo do caminho. Todas as cartas enviadas pelos padrinhos às crianças, ou o inverso, são lidas (lembra-se da proteção das crianças?). A maior parte destas cartas precisa ser traduzida. O volume de cartas é tão elevado que algumas organizações contam com parceria com os Correios para possuir um centro de processamento próprio.

Assim, com um número reduzido de crianças, não é possível manter esta estrutura de garantias que existe, e cujo custo é elevado. Apenas com um processo em larga escala pode-se manter esta estrutura intermediária necessária.

Quais seriam, então, as alternativas?

Apadrinhamento de escolas/organizações de base comunitária

Atualmente, o processo de apadrinhamento funciona em um formato de 1 padrinho para 1 (ou mais) criança. É este volume quase inimaginável de correspondências e um monitoramento individual de cada criança que torna o processo tão custoso.

A partir do apadrinhamento de escolas, o monitoramento se torna mais simples: garantia de que há um número mínimo de crianças na escola/organização social de base; garantia da qualidade da oferta de atividades para crianças e adultos.

Também será possível contornar o problema do ponto de saturação: em uma comunidade com 200 crianças, somente podemos ter 200 padrinhos. A partir do apadrinhamento de uma organização social de base, podemos ter 400 padrinhos que mantém as atividades para 200 crianças, por exemplo.

Apadrinhamento corporativo

Esta solução se assemelha à do apadrinhamento de escolas/organizações de base comunitária acima, porém com o diferencial que, no lugar de 01 indivíduo apadrinhar a escola ou organização, uma empresa seria o sponsor.

Uma das vantagens é que, enquanto pessoa jurídica, a empresa pode descontar do imposto de renda parte de sua doação. Desta forma, no lugar de cada um dos empregados (aqueles que optarem por participar) doarem, a empresa descontaria o valor dos contracheques e faria a doação diretamente.

Já tive contato com alguns casos onde a empresa, em virtude de seu benefício fiscal, paga metade do valor do apadrinhamento e o funcionário a outra metade.

Todos saem ganhando: o funcionário pode apadrinhar com um valor mais baixo, a empresa tem dedução fiscal, e tanto a empresa como os funcionários podem agregar valor à imagem corporativa.

O processo de comunicação se torna também menos custoso – trata-se de “um padrinho” empresarial… e, ficará ainda menos custoso se o apadrinhamento for de uma escola ou organização, e não de crianças, individualmente.

Uso de novas tecnologias para comunicação criança-padrinho

A democratização do acesso a novas tecnologias (redes sociais) cria ao mesmo tempo uma solução e um risco. Uma das maiores preocupações das ONGs que atuam com processos de apadrinhamento é a proteção da criança, através do monitoramento da comunicação entre ela e seu padrinho/madrinha.

No Brasil, este monitoramento torna-se quase impossível com a crescente democratização do acesso à Internet, e a possibilidade de padrinhos/madrinhas e crianças “se encontrarem” virtualmente.

Neste caso não há solução simples – mas não podemos simplesmente “deixar para lá”. Esta comunicação virtual já existe e deveríamos encarar não como apenas um risco, mas como uma oportunidade de reduzir os altos custos de comunicação do apadrinhamento.

Já há “pilotos” em curso para utilizar plataformas virtuais (paralelas, não abertas) para esta comunicação. Mas este não é o caso… o FaceBook está aí, e devemos usá-lo ou ele irá nos atropelar.

Devemos lembrar que há padrinhos e madrinhas que preferem receber as cartinhas, ver a letra ou desenho da criança, sentir o cheiro do papel e guardar o selo do envelope.

Inversão da lógica de apadrinhamento

Em minha opinião, esta será a solução para o apadrinhamento 1 a 1 tradicional. Por inversão da lógica, entende-se a inversão do fluxo de recursos: o padrinho não mais faria sua contribuição mensal a uma “grande” ONG, e sim diretamente a uma organização de base comunitária.

Desta forma, a ONG que anteriormente era uma intermediária (necessária), não mais necessitaria de uma estrutura “pesada” (administração, recursos humanos, TI, etc.). Seria necessário apenas que esta ONG tivesse uma equipe reduzida.

Seu papel mudaria significativamente. No lugar de administrar estes recursos e garantir a qualidade das atividades oferecidas às crianças, a ONG focaria apenas neste último aspecto.

A organização de base comunitária seria certificada – como acontece hoje com o Comércio Justo ou com os produtores orgânicos. Desta forma, os padrinhos/madrinhas teriam a certeza que a organização social de base que escolhesse segue um alto padrão de qualidade, tem uma boa governança, e um processo administrativo transparente e bem conduzido.

Mais recursos chegariam “à ponta”, permitindo uma sobrevida do atual processo de apadrinhamento 1 a 1. Idealmente, um plano de transição necessitaria ser colocado em prática: convidar os padrinhos a apadrinhar a organização (e não mais uma criança específica) e se estudar uma forma de selecionar os padrinhos e permitir sua comunicação direta com a criança – os padrinhos também seriam certificados.


Estas são apenas ideias que, se combinadas e testadas, poderiam se consolidar ou evoluir a partir da experimentação e avaliação de resultados. Ao menos, estaríamos testando novos modelos e buscando alternativas, no lugar de simplesmente tapar o sol com uma peneira.