Análise dos sistemas de educação e sistemas de formação do Brasil

Em junho de 2006 o Brasil deu um passo à frente na democratização do acesso a formação universitária, através da instituição da UAB – Universidade Aberta do Brasil. Esta medida representa uma intenção governamental em utilizar os instrumentos e metodologias que surgem através da EAD, porém muitos outros aspectos necessitam de atenção quando pensamos em uma política educacional para o futuro.

Questões estruturais e científico/metodológicas devem entrar na pauta do planejamento de uma política educacional, para além da simples utilização dos instrumentos.

Estruturalmente o Brasil não está preparado para permitir que o acesso à educação seja realmente universalizado. Se o entrave anterior ao acesso a cursos superiores eram a pouca quantidade de vagas em universidades públicas aliada ao alto custo de universidades particulares, criar um mecanismo virtual de propagação deste conhecimento não tornará a educação universal se os indivíduos não tiverem condições de acessar o ciberespaço.

Apesar da existência de vários programas governamentais para aquisição de equipamentos, apenas uma pequena parcela da população tem condições de adquirir seu próprio computador. Mesmo após esta aquisição, o acesso a Internet no Brasil é um enorme gargalo, considerando que os custos de acesso a conexões banda larga (larga?) no Brasil são elevadíssimos, quando comparados aos Estados Unidos, Japão, ou Coréia do Sul.

Segundo Pierre Lévy, em seu texto “A nova relação com o saber”, o ciberespaço modifica ou complementa funções cognitivas humanas através de “espaços” virtuais: memória (bancos de dados, hiperdocumentos, arquivos digitais de todos os tipos), imaginação (simulações), percepção (sensores digitais, telepresença, realidades virtuais), raciocínios (inteligência artificial, modelizaçãode fenômenos complexos).

Desta forma, não é possível pensarmos em desenvolvimento da EAD sem paralelamente um programa de desenvolvimento tecnológico que facilite o acesso ao ciberespaço, e que o prepare estruturalmente para este fluxo de informações.

Mas por estrutura no sistema educacional não devemos atentar apenas para os aspectos tecnológicos, para não dizer “computacionais”. Segundo Lévy, duas grandes reformas são necessárias nos sistemas de educação e formação: a aclimatação dos dispositivos e do espírito do EAD, e o reconhecimento das experiências adquiridas.

Por aclimação compreendo a necessidade de uma estrutura de acompanhamento e direcionamento das diversas metodologias e grades pedagógicas que serão implementadas.

Tomemos por exemplo o surgimento exponencial de faculdades particulares no Brasil na última década. A expansão da quantidade de universidades e faculdades particulares presenciais provou ter ocorrido sem uma ordenação e devida fiscalização, criando cursos que não atendiam aos parâmetros mínimos estabelecidos pelo MEC. Este desastre precisou ser corrigido em seguida por meio da fiscalização e de notas atribuídas no MEC, causando o encerramento de cursos e fechamento de algumas faculdades. O processo foi positivo, mas a implementação desordenada.

O mesmo não ocorrerá com a EAD? Esta desordem não será infinitamente mais desastrosa em virtude das possibilidades do ambiente virtual? Será possível “apagar” o conhecimento já gerado?

Atentando para este último questionamento, retomamos a segunda grande reforma, segundo Lévy: do reconhecimento das experiências adquiridas.
O futuro da educação não poderá mais sofre o controle e a modelagem rígida dos padrões tradicionais. Na UAB as diretrizes educacionais e a construção pedagógica serão definidas em fóruns compostos por coordenadores da UAB das instituições públicas de ensino superior. As construções coletivas e individuais de outros segmentos da sociedade, os saberes não-acadêmicos, as demandas das indústrias, entre outros aspectos, não participarão desta construção.

Há sim uma necessidade de direcionamento pedagógicos do Ensino a Distância no país. Não condeno a existência destes fóruns, porém deve-se ficar atento para que tipo de modelagem resulte deste trabalho: deve-se criar uma base para as mudanças educacionais, e não o engessamento da EAD através de métodos convencionais apenas adaptados à realidade virtual.

Tomemos um exemplo de adequação metodológica do qual participo, e da forma como se encontra instituído no seu país de origem. Durante dois anos tenho coordenado um processo de “tropicalização” de uma metodologia de intervenção social chamada Self-Help-Group, cuja origem está na atuação de instituições não governamentais na Índia.

Naquele país este método de intervenção transformou-se em um movimento, onde aproximadamente 400 milhões de pessoas encontram-se unidas em grupos formais e informais, como foco no hábito da poupança, no fortalecimento democrático, e no desenvolvimento econômico e social de seus indivíduos.

Mas como é possível o mesmo método ou metodologia ter se multiplicado exatamente da mesma forma em um público de “2 Brasis”? Não é possível. O que ocorreu naquele país foi o estabelecimento de critérios e parâmetros mínimos pelo governo indiano (Ministério da Educação), e sua disseminação ocorreu respeitando as peculiaridades de cada região do país, os conhecimentos e práticas já existentes nas diversas comunidades e as construções coletivas para problemas e gargalos existentes para cada Estado, cada cidade, cada povoado e cada indivíduo.

Da mesma forma, a construção pedagógica e a estrutura educacional do país necessitam atentar para as demandas individuais e coletivas, sejam elas de educadores ou educandos.

Partindo da conceituação de Lévy do que ele chama de árvores de conhecimentos, o sistema educacional deve ser parte de uma inteligência artificial, não como a entendemos em filmes de ficção científica, onde o computador substitui a inteligência humana, mas em um novo conceito de inteligência coletiva.

E por assim o ser, estará em constate mutação e adaptação. Se aprender se modificará permanentemente, seu direcionamento não deve ser embasado em critérios e formas convencionais, nem deverá ser algo tão mutável quanto o aprender em si.

Novas formas de conhecimento, de avaliação e de saber surgirão constantemente, novos atores participarão desta construção e estruturas físicas e metodológicas serão forçadas a se adaptar e acompanhar a evolução do saber. Uma política de educação bem elaborada deverá levar em consideração todos estes aspectos.

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Uma resposta to “Análise dos sistemas de educação e sistemas de formação do Brasil”

  1. Severina do Carmo Says:

    Surpresa positiva a criação de seu blog, me alegro. Este texto alerta tópicos não pensados com seriedade e orienta para medidas de fundo.
    Parabéns por trazer o Self-Help-Group, acredito que dentro em breve poderei convidá-lo para ações nas comunidades onde tenho presença.
    Forte abraço, e obrigada por compartilhar sua experiência.


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