Vou-me embora pra Pasárgada

“Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei”

Aqui, os direitos trabalhistas estão sendo devorados… e sou apenas um trabalhador.
Pouco a pouco o sucumbe o seguro desemprego… primeira das garantias que se esvai.
Teremos surpresas com as regras da aposentadoria?
Se tivermos, só para os mortais – para o rei e sua corte, a aposentadoria é integral.
Claro… após apenas 8 anos de suado e duro trabalho (3 dias na semana, 8 meses no ano…).

“Vou-me embora pra Pasárgada
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente”

Aqui… há inconsequência, mas a existência não é aventura.
Agora, agora mesmo, nas carreiras (na pressa, e nas carreiras de cadeiras da Câmara e do Senado)
Aprova-se a terceirização da mão de obra para atividade fim das empresas.
A alta burguesia quer seu assento ao sol. Por que manter os mesmos direitos que a diretoria usufrui para os simples mortais: planos de saúde, participação em lucros, benefícios, diárias, etc. ? Por que? Pra que?

“Vou-me embora pra Pasárgada
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo”

Porque aqui, só pau de arara…
Vão reduzir a maioridade penal… colocar crianças e adolescentes em cadeias…
Em máquinas de tortura e de educação criminal.
Porque o problema aqui não é impunidade, é a idade.
Porque o problema aqui não são os processo de reeducação, só os de punição.

“Vou-me embora pra Pasárgada
Andarei de bicicleta”

Porque aí não preciso pensar na gasolina, no petróleo…
Na Petrobrás

“Vou-me embora pra Pasárgada
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção”

Concepção: capacidade, ato ou efeito de compreender, de perceber alguma coisa.

Ah… isso sim, aqui tem. Impede-se a concepção. Mesmo assim, vou-me embora pra Pasárgada.

Anúncios

7 vidas, 7 anos, 7 reais

stick_figure_holding_seven_1600_clr_7796Pitágoras afirmou que o sete é um número sagrado, perfeito e poderoso, além de mágico.

No estudo da numerologia, o sete é definido como um número que encerra uma plenitude, algo que não precisa de um complemento – um número que torna algo completo ou perfeito.

Em diversas religiões o sete está presente como número místico, indicando o processo de passagem do conhecido para o desconhecido. Representa ainda o triunfo do espírito sobre a matéria.

E eu me encontrei com o 7… trêz vezes e um único momento.

Recentemente visitei comunidades que apoiamos através de um projeto de combate e prevenção ao trabalho infantil, onde tive a oportunidade de conversar e entrevistar diversas crianças e suas mães.

Uma das entrevistas “mexeu” comigo. Muito.

Uma senhora mãe de 7 crianças, onde uma delas participa do projeto, é deficiente de um braço, viúva, e sustenta seus filhos com apoio apenas do bolsa família.

Ao perguntar sobre o dia a dia de seu filho de 9 anos que participa do projeto, ela me explicou que ele frequenta a escola, vai aos encontros do Projeto, e que nas horas vagas “ajuda” na horta que a família tem no quintal de casa.

Eu quis saber um pouco mais sobre esta ajuda nas horas vagas, e ela respondeu que “lá em casa, passou dos 7, vai pra enxada”. Sem esta “ajuda” das crianças na horta, por ela ser deficiente, não conseguiria dar conta…

Perguntei mais sobre a horta, e ela me disse que a maior parte do que é cultivado é consumido pela família, mas que uma parte é trocada com vizinhos por outros produtos, ou por pequenas quantias de dinheiro que ela guarda para pagar a conta de água.

– O dinheiro do bolsa família e da previdência vai todo para comida dos meninos. Não sobra nada para pagar a água. É uma luta todo mês para conseguir pagar a conta – me confessou ela.

E, com um largo sorriso, ela finaliza:

– Mas tudo vai dar certo, meu fio. Deus tá ajudando, e tudo vai melhorar agora.

7 reais.

A conta de água dela é de apenas 7 reais.

E, do valor da bolsa família, não sobra o suficiente para pagar esta conta.

– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –

Esta realidade me caiu como um raio na cabeça no exato instante em que preocupações desnecessárias me rondavam uma possível multa que teria (terei) que pagar. Multa que não me deixará sem água, sem comida, que sequer irá alterar meu orçamento mensal nem me deixar em dívidas.

Para além da minha egocêntrica preocupação, me cai a venda da realidade que pessoas como o aquela senhora vive todos os dias, todos os meses.

Ainda comovido e com olhos cheios d’água pela sua situação, mas contagiado pelo seu sorriso, prefiro encerrar este post sem uma conclusão ou reflexão.

– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –

Veja nos posts a seguir as versões em inglês, espanhol e francês deste texto.
Meus agradecimentos ao Aflatoun e a Almudena Corral pela tradução.

– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –

Continue lendo »